Professor cria atelier artístico e poético para fortalecer identidade negra

23/09/25

Curso inspira educador a criar projeto de educação antirracista por meio da arte

Ao realizar um curso sobre educação antirracista na plataforma Escolas Conectadas, o professor de história Rosendo Lima se deparou com um conceito até então desconhecido para ele: a ambiência racial. O educador, que já buscava se aprofundar em educação antirracista, encontrou no conceito um importante embasamento para a sua prática pedagógica. 

A ambiência racial pressupõe a criação de ambientes adequados para a vivência positiva de grupos raciais diversos, promovendo a valorização de suas histórias e culturas, em contraposição a espaços que privilegiem um único grupo. A partir desse novo entendimento, Rosendo passou a focar na construção de uma nova ambiência racial no "chão da escola e em seu entorno". No caso, o Colégio Estadual Professor Nelson Barros, em Salvador (BA), no qual leciona para as turmas de Ensino Fundamental e da Educação de Jovens e Adultos (EJA).

“Esse novo ambiente é focado no respeito e nas ações humanizadas, tirando o negro e sua história ancestral da invisibilidade”, afirma o educador, que vê a necessidade de construir essa nova ambiência racial especialmente na educação básica, na qual – apesar da existência da Lei 10.639 – geralmente existe uma resistência em focar na educação antirracista, em sua visão.

“Considero relevante trabalhar questões antirracistas em minha prática docente porque a escola ainda é atravessada por uma falsa ilusão de que no Brasil não existe racismo”, relata. “E quando eu proponho uma educação antirracista, voltada para a construção dessa nova ambiência, dessa nova realidade dentro da educação, estou fazendo com que meus estudantes se percebam negros e saibam da importância desse pertencimento e dessa virada de chave no reconhecer de sua negritude.”

Atelier de leitura e escrita

Tirando a teoria do papel e colocando em prática, Rosendo elaborou uma sequência didática, que iniciou discutindo o racismo na sociedade brasileira – das origens aos dias atuais –, passou por inúmeros debates sobre o tema e terminou estimulando que a turma pusesse a mão na massa para refletir sobre o que é ser negro no Brasil. Nascia assim o atelier de leitura e escrita.

Nesse espaço, os estudantes são convidados a se manifestar artisticamente – seja por meio de pinturas, palavras, poesias, desenhos, frases. “Ele foi de uma importância avassaladora porque, além de usar a ludicidade para produzir conhecimento, as explicações dos alunos sobre as suas produções eram verdadeiras obras primas referentes ao entendimento de sua negritude e dos processos de racismos e violências vividos ao longo de suas vidas”, aponta Rosendo.

O professor afirma que muitos estudantes se perceberam negros a partir do atelier. “Tive uma aluna que trouxe vários registros, inclusive uma pintura de uma mulher negra que não tinha parte da cabeça. E na sua explicação ela disse: ‘É porque na sociedade o negro só é visto do corpo para baixo’.”

A proposta também abriu espaço para que o professor usasse recortes de autores para embasar os debates, como Lélia González, discutindo sobre como o corpo negro só era visto como uma forma de dar prazer, mas não como um corpo que existia e pensava, que podia produzir e criar.

“Os estudantes se dedicaram, se entregaram à construção, se interessaram. Valorizei a autonomia deles em escolher o que produzir, como explicar, e a partir dessas interações fui trazendo as minhas contribuições enquanto professor e mediador.”

Antirracismo na EJA

O professor considera fundamental a implementação da educação antirracista nas turmas da Educação de Jovens e Adultos. “Por mais que a EJA hoje esteja mais jovem, ela ainda é formada por uma maioria de trabalhadores que sofrem em uma sociedade racista. Então esse sujeito precisa ter uma educação antirracista, pois é importante que entenda o que são práticas racistas, já que no seu dia-a-dia ele é asfixiado por muitas delas.”

E volta a ressaltar: o estabelecimento da ambiência racial na escola a transforma em um espaço que estimula a cidadania, que diz não a qualquer tipo de discriminação e preconceito e que acolhe todas as diferenças. “Todas as escolas do Brasil deveriam focar na educação antirracista”, acredita.

Formação em antirracismo

Rosendo aposta também que todos os educadores – em especial os da área de humanas – deveriam se aprofundar em formações antirracistas. “Nós estamos falando de mais de 500 anos em que as práticas racistas existem no Brasil. E mesmo após o processo de abolição da escravidão, elas continuam em manutenção. Então, necessitamos nunca deixar de falar sobre, nunca deixar de ensinar e combater essa realidade com práticas antirracistas.”

Ele ressalta a importância do curso “Introdução à Educação Antirracista”, que realizou em 2024 na plataforma Escolas Conectadas. “Me possibilitou ter mais esse embasamento e entender que, enquanto professor e cidadão, eu necessito ser parte dessa educação libertadora, que liberta o outro do seio da ignorância fazendo com que ele rompa essa bolha do não saber”, diz, citando Paulo Freire. “E com isso passe a aprender, a ser multiplicador dessa educação em sua comunidade, em seu convívio diário, em sua casa, entre seus amigos, fazendo com que se pense a respeito dessa educação que cria espaços para a reprodução de conhecimento válido e não a reprodução de violências e de mais racismo.”

Tecnologias para a educação antirracista

Atualmente, há dois cursos da plataforma Escolas Conectadas que mostram como a tecnologia é uma aliada para tornar o ensino mais inclusivo, reflexivo e antirracista. São eles: Educação Antirracista Mediada por Tecnologias: Conceito e Fundamentos e Tecnologias como Aliada da Educação Antirracista: Práticas e Perspectivas. Ambos são totalmente gratuitos e on-line, com carga horária de 20h e certificação reconhecida pelo MEC.

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