Professora organiza desfile para valorizar a cultura negra e fortalecer a educação antirracista

07/02/25

Educadora compartilha de quais maneiras a formação “Introdução à Educação Antirracista” impactou a sua prática pedagógica

Os corredores da Escola Municipal Manoel Souza, localizada em Biritinga, no interior da Bahia, por um instante ficaram vazios. Mas, em um piscar de olhos, esses mesmos corredores viraram palco para um desfile de estudantes e professores, que mostravam com orgulho seus cortes de cabelo e penteados afro e, consequentemente, as suas raízes africanas. Então, o silêncio de outrora foi preenchido com palmas e gritos de euforia da comunidade escolar que apreciava o evento.

O desfile, organizado pela educadora Gilvaneide Carvalho dos Santos, foi uma das ações pedagógicas relacionadas ao Dia Nacional da Consciência Negra de 2024, que contou ainda com atividades artísticas como música, dança e teatro, além de palestras e oficinas sobre o tema.

Professora dos anos iniciais do Ensino Fundamental, Gilvaneide conta que, após concluir a formação on-line “Introdução à Educação Antirracista”, disponível gratuitamente na plataforma Escolas Conectadas, passou a trabalhar em sala de aula com o livro “Meu crespo é de rainha”, da escritora bell hooks. Ela também acrescentou o complemento “e de rei” no título, para envolver os meninos.

“Trabalhando com esse livro, os estudantes aprenderam a valorizar os seus cabelos afros, trazendo autoestima para as crianças negras”, afirma.”Passaram a reconhecer-se como lindos que são, e a amar os seus cabelos crespos. Esse processo foi fundamental para entender que, hoje em dia, a educação antirracista é imprescindível.”

Para apoiar na produção dos cabelos e penteados, a professora envolveu os pais dos próprios estudantes, que a ajudaram a pensar e a elaborar os cortes e tranças. Em algumas crianças, foi necessário apenas o simples gesto de soltar os cabelos e deixar os cachos à mostra. Durante o desfile, também foram lidos trechos do livro de bell hooks.

Feriado nacional de Consciência Negra

Em 2024, pela primeira vez, o feriado da Consciência Negra se estendeu por todo território brasileiro. Em Biritinga, no entanto, a efeméride já é feriado há algum tempo. Para celebrar esta data, a Escola Manoel Souza – que faz parte da comunidade quilombola de Vila Nova – organizou dois dias de atividades culturais e pedagógicas sobre o tema.

No entanto, não é somente na semana deste feriado que a conscientização sobre o racismo e a cultura negra ocupam o calendário escolar. Durante todo o ano letivo, a escola realiza o projeto pedagógico multidisciplinar “Nosso povo, nossa história: saberes, vivências e resistências”. A iniciativa busca cumprir a Lei 10.639, que desde 2003 tornou obrigatório o ensino sobre história e cultura afro-brasileira na educação básica.

“A escola é fundamental no processo de transformação da realidade social, uma vez que forma pessoas que vão ocupar e ajudar a construir todas as demais instâncias sociais”, observa Gilvaneide. “Portanto, é em sala de aula que nós podemos mudar a realidade do racismo, para que os estudantes compreendam que a luta pela educação antirracista é importante para o seu futuro. E aprendi no curso que isso deve ser enfatizado na escola.”

A professora ressalta que, apesar de não ter muitos recursos, a escola possui professores bem qualificados e, acima de tudo, trabalha em conjunto com a associação comunitária do quilombo. “Ao longo do ano letivo, trazemos para a escola temas como negritude e a cultura afro-brasileira, valorizando a identidade e particularidade de cada povo.”

O que é um educador antirracista?

Gilvaneide considera que o curso “Introdução à Educação Antirracista” foi um pontapé muito importante para ela se entender como uma pessoa consciente de si dentro de um sistema de opressão que estrutura a sociedade. “Uma vez que também sou uma mulher negra, de pele retinta, a formação fortaleceu meus pensamentos em torno do que é um educador antirracista”, afirma. 

“Esse educador é aquele sujeito que, em uma sociedade estruturalmente racista, compreende que não há como fugir desse mal social se não destruirmos o racismo em suas bases”, analisa. “Como opressão estruturante da nossa sociedade, o racismo constitui subjetivamente cada um de nós, de modo que nosso modo de pensar é atravessado por ele, e isso reverbera em nossas falas e ações no dia a dia.”

O curso a ajudou a entender que, dentro da comunidade escolar, é fundamental que todas as funções adquiram esse olhar antirracista: seja na sala de aula, na secretaria, na cantina, na limpeza, no portão. “A escola é o espaço de formação humana por excelência, ela é um complexo social fundamental na nossa constituição, tanto no âmbito social, pensado na coletividade, quanto no aspecto individual, a partir das nossas construções subjetivas.”

Se aprofunde na Educação Antirracista

O curso “Introdução à educação antirracista” apresenta conceitos da temática, como ambiência racial, e mostra de forma prática como professores da educação básica podem aplicar uma educação antirracista em sala de aula.

Assim como Gilvaneide, você pode realizar o curso de forma gratuita e online! As inscrições estão abertas até o dia 28/04. A formação tem carga horária de 10h e possui certificado emitido por uma instituição reconhecida pelo Ministério da Educação.

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